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Como uma cópia chinesa do ICQ deu origem a um império maior que o Facebook

Como uma cópia chinesa do ICQ deu origem a um império maior que o Facebook
09/08/2018 Redação GC

Como uma cópia chinesa do ICQ deu origem a um império maior que o Facebook

Imagine se o Facebook decidisse competir com a Amazon no comércio eletrônico e com o Google nas buscas online. Em um segundo passo, também se tornasse uma das principais produtoras de games do mundo, com direito a um estúdio de cinema.

E, por fim, criasse um serviço de pagamentos móveis e também uma firma de investimentos com tentáculos em áreas como robótica, mídia e comércio eletrônico.

Sede da Tencent, gigante chinesa que é maior que o Facebook // Foto: Getty Images

A descrição grandiosa acima está longe de ser a realidade do Facebook, mas é exatamente a definição da Tencent, a maior rede social da China e um oligopólio digital com valor de mercado de US$ 560 bilhões, o que a coloca à frente, por exemplo, do próprio Facebook.

Curioso é que a semente disso tudo foi um programinha de bate-papo bem conhecido dos brasileiros: o ICQ. Em 1998, Ma Huateng (também conhecido como Ponny Ma), fundador e até hoje executivo-chefe da Tencent, deixou um modesto emprego na empresa de telefonia China Motion, onde ganhava o equivalente a US$ 176 por mês, para lançar seu próprio programa de chat.

Ele mal disfarçou a origem do software, nomeando-o de OICQ. A icônica flor verde e vermelha do ICQ deu lugar a um pinguim estilizado – ainda hoje símbolo maior da Tencent, exposto até no topo do prédio de 45 andares que abriga a firma em Shenzhen.

Evidentemente, Huateng acabou processado e foi forçado a mudar o nome de seu comunicador. Mas isso não impediu o agigantamento da empresa. Fundos públicos chineses, que tinham interesse em “fomentar empresas nacionais de tecnologia”, sustentaram a companhia – por três anos, foram prejuízos seguidos.

Mais do que financiamento, o governo de Pequim impediu a competição de companhias estrangeiras no país, criando uma reserva de mercado para que Tencent e mais uma centena de outros nomes florescessem no início dos anos 2000.

Centro da vida chinesa

O boom econômico chinês no início da década passada favoreceu o crescimento de empresas digitais do país. Entre 2001, ano em que a Tencent registrou seu primeiro lucro anual, e o atual 2018, o número de usuários de smartphone no país saltou de um patamar próximo a zero para 700 milhões.

Apoiada na base de usuários do fenômeno QQ (novo nome do QICQ),
a Tencent lançou em 2004 sua abertura de capital. Em poucos anos, o programa deu origem ao WeChat (chamado pelos chineses de “Weixin”), que hoje permeia a vida chinesa em seus mais variados níveis.

Com o WeChat, os chineses podem:

  • substituir o “RG chinês”
  • chamar táxis
  • pedir entrega de comida
  • fazer compras online
  • agendar horários em salões de beleza
  • procurar namorado (a)
  • divorciar-se
  • encontrar emprego
  • agendar exames médicos
  • enviar cartões postais físicos
  • monitorar entregas dos correios
  • pagar contas de água e luz
  • fazer transferências monetárias
  • agendar pedidos de vistos
  • checar dados da carteira de motorista
  • reservar mesa de restaurante
  • fazer check in em hotéis
  • mandar roupas para a lavanderia

Parte dessas tarefas pode ser feita com a voz por meio da assistente
virtual WeSecretary. A tecnologia é similar à da Siri, do Google Assistente e da Alexa. Mas tem um diferencial: tudo, incluindo a ferramenta de pagamentos, está embutido na mesma plataforma. Isso tem potencial maior de gerar receita em relação aos concorrentes ocidentais – para agendar um corte de cabelo, por exemplo, a taxa é de 10%.

Ponny Ma deixou um emprego onde ganhava US$ 176 para fundar a Tencent // Foto: Anthony Wallace/AFP

Inspiração do Facebook

Em estudo publicado pela consultoria Golden Sachs, analistas do banco atribuem parte do sucesso da Tencent à visão de negócios “invertida” de Ponny Ma. Em vez de colocar suas fichas em produtos que pudessem gerar receita imediatamente, o chefão preferiu colocar esforços na construção de uma “plataforma de lançamento de produtos” – no caso, o WeChat.

A partir do aplicativo, Ma passou a fomentar toda a sorte de novos serviços digitais, como games, pagamentos móveis e serviço de publicidade digital. Só que, ao contrário do Facebook, o WeChat nunca é inundado por anúncios. Cada usuário pode visualizar uma única publicidade por dia em sua linha do tempo. Não à toa, o Facebook obtém 97% de seu faturamento com anúncios, percentual que cai para 17% na Tencent.

A estratégia da companhia é lucrar com a oferta de outros serviços, como
buscas, comércio eletrônico, inteligência artificial e, claro, games, muitos games. Para executivos da empresa, o modelo de “plataforma de distribuição” é a principal “inspiração” do Facebook em sua estratégia mobile. Em julho de 2014, a empresa americana passou a impedir seus usuários de conversar pelo app da rede social, forçando-os a instalarem o Messenger.

Atualmente, o serviço de Mark Zuckerberg já se assemelha ao WeChat: permite a instalação de miniapps de terceiros, disponibiliza jogos e oferece até serviços financeiros em alguns países, como a França e Estados Unidos.

Jogos mortais

A onipresença da Tencent em serviços digitais chineses ganhou tentáculos especialmente longos no segmento de jogos eletrônicos. A gigante abocanhou nomes brilhantes como Riot Games (desenvolvedora de League of Legends) e Supercell (criadora de Clash of Clans) – além de ser investidora da Epic Games (dona de Fortnite) e da Activision Blizzard (criadora dos jogos Overwatch e Destiny).

A divisão de games responde por quase 15% dos US$ 11,7 bilhões que a Tencent faturou no primeiro trimestre deste ano, com lucro líquido de US$ 3,8 bilhões. A força em jogos é tamanha que a companhia decidiu criar um estúdio e uma produtora de cinema ao estilo da Pixar, a Tencent Pictures.

O sucesso da divisão de games foi também o responsável pela principal crise vivida pela companhia, quando jovens chineses começaram a morrer após maratonas de 48 horas jogando, sem pausas para dormir ou comer. Isso teria levado muitos garotos a sofrer picos de pressão e paradas cardíacas.

Os episódios tornaram-se um desafio de relações públicas e jogaram a opinião pública e o governo chinês contra a companhia. A saída para a crise foi limitar o uso contínuo de jogos, especialmente para menores de 18 anos, limitando o acesso a suas contas a algumas horas por dia. Além disso, passaram a financiar dezenas de “clínicas de reabilitação”, que oferecem esportes ao ar livre, alimentação saudável e um curioso “treinamento de habilidades sociais”, no qual os “dependentes digitais” são incentivados a se expor publicamente em aulas de teatro ou conversas com desconhecidos.

Erros do passado projetam novo futuro

Há uma piada corrente entre os chineses de que as empresas de seu país têm uma grande sorte e um grande azar. A sorte é que elas desfrutam do maior mercado doméstico do mundo. O azar é de que dispõem do maior mercado doméstico do mundo. A brincadeira ajuda a explicar a fortaleza e a fragilidade dos gigantes chineses.

As oportunidades internas são tão grandes que (quase) todo o esforço de
crescimento é voltado para o mercado interno, sem a necessidade econômica de preparar-se para competir fora da China. A própria natureza protecionista do mercado digital chinês, onde não operam gigantes como Google e Facebook, mantém as corporações locais em uma relativa zona de conforto.

Em 2013, a Tencent iniciou um esforço para sair de suas fronteiras e quebrar o estigma de que as companhias chinesas de internet não conseguem ser relevantes fora de seu país. Com um plano ambicioso, contratou Neymar e Messi para divulgarem o WeChat. O barulho foi intenso e a base de usuários do WeChat saltou de quase zero para mais de 200 milhões de usuários fora da China.

Só que poucas destas instalações tornaram-se recorrentes. Relatórios internos apontaram que muitas pessoas instalaram o app por curiosidade, mas rapidamente o abandonaram, mesmo quando gostavam de seus recursos. A explicação é simples: ninguém fica em um aplicativo social se seus amigos não estão lá.

A força do WhatsApp e do Facebook Messenger nos países ocidentais fez o multimilionário plano de marketing da Tencent fracassar. No Brasil, o escritório da companhia foi rapidamente fechado para reduzir prejuízos. Mais uma vez, uma companhia chinesa de tecnologia fracassava ao tentar tornar-se relevante fora da proteção da muralha chinesa.

 

WeChat já permeia a vida dos chineses sob os mais diferentes aspectos

Inteligência artificial e meios de pagamento

Quase nenhum executivo, com exceção das raras aparições de Ponny Ma, dá entrevista e a companhia mantém seus planos futuros sob forte sigilo. Apesar disso, é quase consensual entre os analistas da Tencent na bolsa de Hong Kong que a empresa aposta seu futuro no desenvolvimento de soluções de inteligência artificial, especialmente em comércio eletrônico.

O avanço de serviços de linguagem natural poderá permitir que a WeSecretary seja usada para controlar o orçamento doméstico, as luzes de casa ou para encomendar ao supermercado as compras do mês. E os gastos feitos na plataforma já forçam o serviço de pagamento da Tencent para fora da China. Os “novos mercados” a aceitar o WePay são aqueles em que há maior fluxo de turistas chineses, o que inclui restaurantes no Japão, hotéis na Tailândia e lojas de grife em Paris.

Embora ninguém na companhia admita, o sucesso atingido pelo pagamento móvel na China pode ser a nova “ponta-de-lança” da companhia para desbravar novos mercados, o que inclui os EUA, Europa, América Latina e África. A rede social parece ter encontrado justamente no seu braço “fintech” o caminho que precisava para a segunda incursão além da área de influência chinesa na Ásia.

Para a empresa que nasceu sob a má fama de copiar um programa, não deixa de ser irônico que as inovações da Tencent influenciem estratégias de gigantes como o Facebook, ou ensinem um caminho para Google e Amazon gerarem receita com inteligência artificial.

Fonte: Tecnologia UOL

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